Gentileza gera gentileza

Pelo 15° ano consecutivo, um grupo de cidadãos, conhecido como o Coletivo de oposição à brutalidade policial, fez um protesto em Montreal para (adivinha?) protestar contra os abusos cometidos pela força policial. No fim da tarde de ontem, que, por sinal foi muito linda, com direito a calor - pra essa época - e muito Sol, eles se reuniram na Place des festivals da ilha, onde acontecem as maiores festas da cidade, entre elas o Festival de Jazz. Nós fomos lá entender como o movimento funciona e como seria o protesto. Afinal, né? Violência? Não apoiamos.

Quando chegamos à concentração, vimos muitos jovens, principalmente eles, segurando cartazes lembrando de outros jovens que sofreram alguma violência policial ou mesmo foram mortos pela polícia. Segundo o Instituto Hemisfério Novo de Contagens Imprecisas, umas 250-300 pessoas estavam na praça. Fiquei espantada com a quantidade de policiais que estavam "dando apoio" à manifestação. Eram muitos! E estavam em bicicletas, cavalos, carros, a pé ou em helicópteros.

Pra quem não sabe, a presença da polícia em manifestações públicas é uma constante. Além de ficarem de olho pro caso de haver algum conflito, os policiais aqui são os responsáveis pelo trânsito, então eles cuidam de bloquear ruas por onde os manifestantes vão passar. Li que acontecem uns 1.500 protestos por ano na cidade (!!!). O caso do protesto desse coletivo é especial, por isso tanto policial na rua. Mas não exatamente porque a polícia é o alvo. Explico.

Confesso que fiquei meio decepcionada ao ler que, no ano passado, a manifestação, que na cabeça de qualquer pessoa minimamente sensata deveria ser pacífica, acabou com virtines de lojas depredadas e uma porção de gente presa. E esse ano, infelizmente, não foi diferente. Tudo ia bem na concentração, onde ficamos, mas depois que o grupo começou a andar pela cidade, a coisa meio que saiu do controle. Primeiro erro, na minha modesta opinião: os caras nunca avisam a polícia por onde vão passar. Ou seja, as ruas não são bloqueadas, portanto continuam cheias de carros, ônibus, ciclistas e pedestres. E isso não pode. E eles sabem. Então fica claro que é uma provocação.

Além disso, uma mulher se machucou ao receber uma garrafa de vinho na cabeça (!!!) arremessada por um dos manifestantes, algumas lojas tiveram suas vitrines depredadas, e foram jogados projéteis no meio da rua. E tudo isso numa área super movimentada da cidade (eles saíram do Centro em direção ao Plateau) bem no horário em que as pessoas estão voltando do trabalho, pegando seus filhos na creche e tal. Dessa forma, parecem não querer o apoio da população. Daí que a polícia interveio, e 258 pessoas foram presas. Fim.

Moral da história: acho que qualquer desvio de conduta cometido por uma organização feita para proteger a sociedade deve ser incansavelmente denunciada, ainda mais uma que resulta na morte de pessoas inocentes. E ir às ruas, usar as mídias sociais e a imprensa (que estava lá em peso) é extremamente válido. Mas fazer uso de violência pra combater a violência (coerência mandou lembrança) afrouxa uma discussão que precisa ser levada a sério. Gol contra! Resumindo: não curti.

"Quem nos protege da polícia?"

Aparentemente, os cavalos da polícia montada
estavam defecando e se locomovendo pro protesto

Comentários

Thiago disse…
Camila,
Esse negócio de você escrever pro Metro não dando certo não. NUNCA vi um post de atualidade tão bem feito igual esse! Assim você come toda a concorrência do meu blog!
Um beijo mina! Você comandou neste post!
-T
Camila disse…
HAHAHAHAHHAHAHHAHAHAHHA Thiago, você não existe!

Mas sabe que você me fez pensar aqui...? De fato, depois que comecei a escrever no Métro, minha veia jornalística, que estava adormecida desde que cheguei aqui, ganhou força! Ainda bem que eu tenho o blog pra extravasar!

Beijão.
Pedro Silva disse…
Concordo com o Thiago, você escreve muito bem. Tô sempre vindo aqui ler os seus posts, aliás, é um dos poucos blogs de brasileiros que já imigraram que eu tenho lido.
Parabéns.
Patinha. disse…
Realmente lamentável..acabei de assistir a um filme agora sobre nazismo..desde sempre os homens usam manifestações como disfarces para na verdade exporem seu lado mais cruel e muitas vezes pior do que o do próprio ''inimigo''.
Vamos crescendo e evoluindo,mas devagaaaar ...

Bjs,excelente post!
Alexandre disse…
Oi Camila,
Este pessoal tinha que ir passar uma temporada nas periferias brasileiras e ver o que é de verdade uma polícia
violenta...rs.. É o mesmo grupinho que faz quebra-quebra na Ste catherine após jogo de hockey. Que procurem uma forma de manifestar mais pacífica e inteligente para conseguirem alguma credibilidade.
Excelent post !
Abs
Ale
http://jarrivequebec.blogspot.com/
Anônimo disse…
Oi Ca!!
nossa arrasou, concordo em genero numero e grau (vai ter bilhete sobre o assunto tb?? :) )! Reivindicaçao com violencia nao merece crédito algum.

Bjocas
Erika
LC disse…
Oi!! Já te acompanho a bastante tempo e resolvi passar aqui para dizer que adoro seu blog!!! Também gostei muito deste último post!!! Que gente mais doida né,,,,
Grande abraço!!!
Camila disse…
Brigada pela visita, gente!

Erikita,

Esse assunto não vai pro Métro, não. Preferi deixar ele só por aqui mesmo. Às vezes fico com pena do Hemisfério porque tenho dado muita atenção ao Montréalais. Um chêro, baby.
Mariana disse…
Essas coisas me assustam um pouco por aqui. Há um tempo atrás os Tameis fizeram protestos no downtown. Teve manifestante que jogou bicicletas da policia longe e nada aconteceu. Sem contar que eles simplesmente fechavam ruas e a cidade virou um caos.
Quer manifestar, tudo bem, mas não pode mudar a vida de todo mundo por causa dos seus problemas. e qualquer ato de violencia tem que ser duramente "parado" (esqueci a palavra, desculpe, rs).
abraço
Unknown disse…
esse negocio de resolver violencia com mais violencia não está certo. eles erraram muito na organizaçao do protesto.

abraços.
http://meetyoutherecanada.blogspot.com/

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