Ninguém se trumbica
O Canadá é um país de imigrantes. Os números do IBGE daqui, o Statistique Canada, dão conta de que 19,8% da população canadense é oriunda de outros países. Na província do Québec, esse índice é menor (11,5%), mas continua expressivo. Os programas provinciais e federal de atração de imigrantes estão aí e não me deixam mentir: os caras querem mais!
Além das inúmeras vantagens que um país com um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) sempre nas primeiras posições pode oferecer, o fato de ser um lugar multicultural (ou intercultural como se diz no Québec) confere ao Canadá uma riqueza imensurável.
Se a gente remontar à própria história da construção do país, vamos ver que o negócio sempre foi assim. Reza a lenda que, no início do século XVI, os portugueses (pois bem, pá!) foram os primeiros a chegar por aqui (os portugas tinham tudo pra conquistar o mundo, digam aí? Os caras estavam em toda parte!). Bom, digo "reza a lenda" porque parece que não há evidências muito claras que provem esse feito. Mas eu boto fé no poderio marítimo lusitano!
Antes da suposta chegada dos portugueses no Canadá, os vikings (sim, minha gente, os vikings!!!) passaram uma temporada por aqui. Isso lá pelo século X. Vamos combinar que tem tudo a ver? O clima é o mesmo! Os caras devem ter se sentido em casa. Mas eu me recuso a falar de frio polar em pleno verão. Dá um azar danado!
Continuando... Lá pela metade do século XVI, ingleses e franceses aportaram no que viria a ser o Canadá. E aí começou toda a confusão que a gente conhece. Ambos disputaram a bala a posse do território. No fim das contas, cada um ficou com um pedaço e, hoje, o Canadá é um país bilíngue de maioria anglófona.
Nem vou entrar no mérito da diversidade de indígenas, ou Primeiras Nações - como eles gostam de chamar -, que havia nessas terras, senão esse texto, que era pra ser leve e otimista, vai virar um manifesto contra a violência. Como brasileiros, conhecemos bem como a colonização europeia se deu nas Américas, o que de bom e de ruim resultou dessa história. Mas vamos todos dar as mãos e fazer a Pollyana?
Bom, depois dessa explicação mais rasa impossível profundíssima sobre a mistureba de gente que tem por aqui, baseada em informações coletadas no Wikipédia nos livros mais respeitados sobre a história canadense, finalmente chego ao assunto que pensei pra esse post. Prolixa, eu?
Montreal, que é a segunda maior cidade do país, com uma população de mais de 3 milhões de pessoas, perdendo a pole position pra Toronto, cujo número de habitantes passa dos 5 milhões, reflete bem essa diversidade. Aqui tem gente do mundo todo! E eu acho isso o máximo!!! A possibilidade de fazer uma volta ao mundo sem pagar avião é sensacional! OK, não dá pra ver os lugares, mas dá pra conhecer as pessoas, saber o que elas pensam, do que elas gostam, por que é assim ou assado.
Mas e aqui tem preconceito? Tem! Você ouve gente falando mal do povo X e do povo Y? Ouve! É verdade que alguns empregadores não querem empregar pessoas provenientes de determinados países? É. Você fica com vontade de chorar quando ouve alguém falando mal de um país inteiro porque alguém daquele país se comportou mal? Fica. Dá vontade de mandar a humanidade se explodir e ir pras montanhas? Dá. Mas, ó, nenhuma dessas manifestações de babaquice intolerância me faz deixar de ver a beleza que é viver numa cidade assim.
Adoro brincar de adivinhar de onde vem aquela moça que está na fila do caixa na minha frente ou em que língua falam os dois rapazes com quem peguei o elevador. Nunca vou saber a resposta, mas o que vale é a diversão! E eu me divirto mesmo. Fico tentando imaginar o que eles fazem aqui, há quanto tempo chegaram, por que decidiram sair do seu país, de onde eles acham que eu sou... A imaginação flui e eu deixo. Às vezes esse diálogo deixa de ser esquizofrênico solitário e a comunicação se estabelece. E o francês e o inglês, que não nos pertencem na origem, nos unem. É assim que não me trumbico com os meus professores do Togo e do Líbano ou com as minhas colegas do Uruguai, de Burkina Faso e da Tunísia, por exemplo.
Propaganda de celular traz modelo caracterizado de sikh.
Segundo o Wikipédia aqueles mesmos livros renomados,
são quase 280 mil sikhs no Canadá
No bairro português dá pra se informar, na língua de Camões,
sobre como comprar um imóvel.
Os lusófonos agradecem porque, sinceramente,
ô troço difícil de entender é crédito de habitação.
(Pelo menos pra mim que tenho minhas limitações cognitivas)
Em outra lígua, então!
"Hoje, uma língua que não defendemos está condenada a morrer".
A foto foi tirada em maio desse ano,
quando não havia necessidade de se gravar o ano de 2010 ao lado de 1922.
Propaganda de celular traz modelo caracterizado de sikh.Segundo o Wikipédia aqueles mesmos livros renomados,
são quase 280 mil sikhs no Canadá
No bairro português dá pra se informar, na língua de Camões,sobre como comprar um imóvel.
Os lusófonos agradecem porque, sinceramente,
ô troço difícil de entender é crédito de habitação.
(Pelo menos pra mim que tenho minhas limitações cognitivas)
Em outra lígua, então!
Pra finalizar o post, deixo uma foto que tirei de um banco no Plateau Mont-Royal, onde estava gravada uma frase em francês, traduzida do português, dita por José Saramago e que toca num assunto tão caro aos quebequenses de minoria francófona:
"Hoje, uma língua que não defendemos está condenada a morrer".A foto foi tirada em maio desse ano,
quando não havia necessidade de se gravar o ano de 2010 ao lado de 1922.
Comentários
Essa frase do Saramago é realmente verdade!
sagaz e perspicaz (on ne peut pas laisser mourrir notre portugues!)
abraços!
e eu fico triste quando vejo imigrantes brazucas falando mal de outros imigrantes... trazendo pra cá aquele mesmo erro que deveríamos ter deixado no Brasil... ;)
ah... e Saramago é o cara, né?
Obrigada!! Beijinhos! :o)
Gabriel,
Eu fico tristíssima com o - digamos - empenho que as pessoas têm em falar mal umas das outras. Quando é conterrâneo parece que a frustração é ainda maior. Mas enfim... Somos todos falíveis... =S
Sim, Saramago era um inquieto e continua sendo o cara!
Brigada pela visita e pelos comentários, gente!
Beijos!
Beijos
Ah quanto tempo não entro aqui para ter noticias suas!!!!
me deu saudades!!!!
voce, como sempre, escrevendo maravilhosamente bem!!!
beijo grande
Márcia